Muito bem,
Decidi ir para a Irlanda pela abertura que o país tem para com os estrangeiros. Lá pode-se estudar e trabalhar por meio período. Portanto, tirei do dia-a-dia meu próprio sustento. Estipulei para mim três regras a serem rigidamente seguidas para o bem do meu intercâmbio: A primeira, a mais importante, era não falar português em momento algum (fiquei famoso na escola por isso - não desisti nunca); a segunda era não morar com brasileiros e a terceira, não dividir o quarto com ninguém, pois privacidade é muito importante. E essas regras fizeram do meu intercâmbio de um ano em Dublin uma maravilhosa experiência.
Morei em casa de família por um mês - muito importante para ter uma noção do espaço nos primeiros instantes daquele novo mundo pra mim. De lá fui morar com mais 4 pessoas (1 alemão, 2 espanholas e 1 irlandesa). Todos com mais de 30 anos, não estudavam mais. Foi muito bom dividir a casa com mulheres (isso mantem o padrão da casa razoável - só homens é o caos!). Pessoas mais velhas deixam a experiência mais cotidiana, mais real. Não era aquela turminha que estava no esquema de aulas, novidades e intercâmbio. Eram pessoas estabelecidas em Dublin e conversar com eles era conhecer a realidade da cidade.
Embora tivesse decidido que trabalharia no que fosse pra fazer uma graninha, quando cheguei em Dublin me recusei em pegar os famosos "Shit Jobs". Como ilustrador que sou, tentei o ramo da propaganda - sem sucesso. Então decidi ser "bike courier", pois bicicleta é a minha segunda paixão (bike couriers são entregadores, motoboys de bicicleta). Tive sorte em conseguir um trabalho como esse. Era bem pesado, cansativo muitas vezes, underground...mas não chega a ser "Shit" :)
Conheci muita gente legal. Os couriers são quase como um clã. Um grupo de pessoas viciadas em bike, que rodam a cidade entregando o que for preciso em qualquer lugar, que fazem suas próprias baladas, suas competições e curtem um monte a vida outside. Existe uma sensação de liberdade tremenda nesse trabalho e um dos grandes motivos é que o chefe está sempre longe de você, hehehe! Esse trabalho me deu oportunidade de conhecer a cidade como nenhum outro intercambista. Conheço cada esquina de Dublin, cada vila, ponte, beco...tudo. Pude aproveitar a cidade como poucos. A Dublin é uma cidade muito especial, muito bonita e num tamanho ideal - bem pertinho há lugares maravilhosos para visitar como castelos, igrejas, caminhadas, etc.
Eu trabalhava de dia, estudava de noite e cuidava da casa e dos hobbies nos finais de semana (muito deles relacionados à bicicleta). Sou muito rígido com minhas finanças e, como resolvi passar minhas férias na escandinavia, eu não fazia muitas baladas e gastava apenas com o essencial. No pico da crise econômica mundial em 2009 eu juntei 3 mil euros em 7 meses e me mandei pra Suécia para ser voluntário numa eco-vila.
Mas ai é uma outra e longa história...